"Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer"
Graciliano Ramos

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Porcos-com-asas.

Leônidas era só aborrecimento. Jovem ainda, agia como um ranzinza sexagenário, desses que desistiram da vida sem nem ao menos sabê-la. Era conhecido, tinha amigos e capital. Nunca visto só, Leônidas tinha sua infelicidade assistida por intelectuais, esportistas e proletários. Aborrecia-se de tudo; principalmente de suas posses. Não havia coisa que já não o tivesse entediado. Entediava-se do que tinha e entediava-se do que os outros tinham, não havia solução.

Pois levantou-se esses dias com uma ideia fixa. E telefonou para um amigo próximo:

                - Ô Pasquim, você tá ocupado?

                - Ã? Quem é quem fala?

                - Mas é o Leônidas! Estou com uma ideia, mas preciso de alguém que saiba de animais.

                - Ah, Leo! Faz assim, almoçamos juntos!

Foram ao restaurante e Leônidas expôs sua ideia. Queria criar um porco-com-asas. Um porco com asas! Pasquim ficou estupefato; não existem porcos-com-asas. Suspeitou que fosse brincadeira, ao ver que não, desabafou: "Está louco."

Para Leônidas um porco-com-asas era a única coisa que o faria feliz! Era único, e mais, metafísico! Pasquim desatou a rir; de fato não havia mesmo porco-com-asas. Mas ao  ver resistência de Leônidas, resolveu lhe indicar alguns homens mais estudados, para ver se tinha paz. E indicou. E lá foi Leônidas procurar seu porco alado pra criar 

"Não!" Foi o que encontrou. Não havia mesmo porco-com-asas nenhum. "Mas onde já se viu um louco desse?" pensava um biólogo indicado pelo Pasquim. Outro, expulsou Leo em meio a uma crise de risos. A felicidade não estava nem aí para Leônidas mesmo, mas esse não desistia! Não podia ser cachorro, gato ou tartaruga, havia de ter um porco-com-asas. E pesquisou, sozinho é claro. Soube de um lugar no Tibet, tão metafísico quanto seu porco. Diziam haver lá criaturas parecidíssimas com o que o pensamento de Leônidas definira como "porco-com-asas".

Mês depois partia ele para o Tibet! E mais mês depois voltava ele! Encontrou um paraíso em terra, lugar onde homem nenhum já mais colocou os profanos pés. Viu novos animais, cachoeiras cujo sentido da água era justamente para cima, monstros marinhos e pequenos homens verdes que diziam ser de um planeta vermelho e que estavam lá para estudar. Viu também porcos-com-asas! Voavam sobre as montanhas e árvores, e com sua pele rosadinha, seus rabinhos enroladinhos e suas asas de arcanjo, faziam sons característicos dos porcos muito acima dos arranha-céus. E o problema está aí: Os porcos-com-asas existiam. Existiam mesmo!

Leônidas entediou-se deles e voltou pra casa com as mãos vazias.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Ao Eça.

Acordou certo dia e exclamou: " Não sou feliz na cidade,
Vou pras serras!"
E foi mesmo.
Voltou semanas depois, ainda infeliz.
Infeliz na cidade
E Infeliz na serra.
Ô seu Eça, que grã-ventura?
Ventura não há.

terça-feira, 20 de março de 2012

Saudosismo.

O ser-poeta não é mais o ser de antigamente..
Ah, antigamente... As mulheres amavam os poetas.
O poeta era príncipe!
O poeta era engenheiro!
Era Poetinha!
Hoje é o que?
As mulheres já não amam os poetas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Papo de porta.

               Na minha cozinha há uma porta que nunca para; hora aberta; hora fechada. É um horror. Eu, particularmente, sempre a fecho. Porém, esses dias, ao me ver fechá-la, minha mãe protestou.
               
                - Mas que saco, como você é chato, Pedro! Deixe a droga da porta aberta, ninguém aguenta esse calor.

                - Mas mãe...
               
                O protesto metamorfoseou-se em ordem, e depois proclamação... Cedi.  Ficou a porta aberta pelo resto do dia. Não me conformei, é fato; cedi, pois forças ocultas me impediam de continuar (Sei bem como é, Jânio). Mas ao olhar a porta aberta, e ver toda a luz que de fora entrava, pensei com meus botões: Pra que serve a porta?
               
                Duvida cruel. Não sei da origem da porta, nem tive o ânimo de descobrir; não sei seus feitos históricos, não sei quem a popularizou, nadinha disso. Apenas sei que ela abre e fecha; Esconde o casal de namorados, mostra a o jardim do palacete, e é a moldura preferida das casas de praia. Machado descrevia as almas como se fossem casas; a de Bentinho tinha portas frouxas; ah se Bentinho tivesse uma fechadura; Ia-se embora uma grande obra. Conclusão que prova o óbvio: São bem vindas as portas abertas na arte. 

                Há, porém, pessoas como eu, que acreditam na utilidade da porta fechada. Se houvessem mais delas trancadas, quem sabe não nos habituaríamos a nos levantar para abri-las? Portas sempre abertas não despertam o nosso sentimento de incômodo com a luz que não entra na sala, ou com o calor que faz na cozinha. Ela fechada é o primeiro passo para a porta aberta, o resto depende de quem a confronta. São atrás das fechaduras que vivem as surpresas, as portas abertas são alvos fáceis para os preguiçosos. Divagando sobre portas, portões e portinholas, recordo que a Fernanda de García Márquez dizia que as essas foram feitas apenas para se fechar; concluo e fecho a porta da cozinha.

                Peço perdão pela desobediência, mas outra Fernanda (essa minha mãe) não é fruto de um Nobel de Literatura.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nota de carnaval.

"Carnaval, carnaval, carnaval. Fico tão triste quando chega o carnaval." Não é só o Melodia que fica triste quando chega o carnaval. Muitos outros também se entristecem com tão alegre comemoração. Porém, apenas o nosso grande cantor perdeu Maria, os outros... 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Crônica experimental acerca de literatura e carros importados.

Estava eu a ler um livro referente a crônicas que peguei com meu professor quando recebi um choque de realidade. No ensino fundamental eu não tive contato com nenhum gênero literário, apenas com raros poemas do Drummond que são usados nos livros didádicos ( coisa que vim a perceber muito tempo depois, quando já tinha uma pequena experiência com textos e poemas Drummondianos). 


Fui infeliz na minha descoberta. Chateei-me ao perceber que minha relação com a literatura poderia ter sido adiantada, e preocupei-me com os desígnios da nação. Uma vez que se eu não tive contato com a literatura no ensino fundamental, milhares, centenas de milhares de outros jovens também não tiveram, e sendo otimista, uma pequena parcela desses jovens tiveram um contato mais íntimo com textos literários posteriormente. É evidente que a maioria das escolas do ensino médio tem a leitura de clássicos da literatura brasileira nos planos de aula de literatura, afinal, os vestibulares pedem algumas obras como Dom Casmurro e Iracema, porém os pobres livros acabam se tornando alvo do preconceito e da inexperiência literária dos jovens sendo taxados de "chatos", "entediantes" , ou em casos mais extremos, "incompreensíveis".

Com base nessa realidade assustadora eu desenvolvi um modelo utópico de sociedade que compartilharei nas linhas a seguir: Seria a inversão de valores. E justamente esta afetaria principalmente a camada jovem da sociedade, e também os adultos, as donas-de-casa, os grandes banqueiros e as concercionárias. A inversão de valores desvalorizaria os carros importados. Sim, apenas os carros importados, os ícones de liberdade física e financeira. Os carros seriam pros intelectuais, críticos literários, escritores, físicos, mendigos, e todos que estão às margens da sociedade. Os livros seriam para os webstars, jogadores de futebol e o Silvio Santos.