"Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer"
Graciliano Ramos

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Curto conto do esquecimento.

Dagoberto esquecia-se com frequência. Vivia uma rotina corrida e maçante que o impedia de se lembrar das diversas responsabilidades que um homem empregado tem.  Trabalhava em um escritório de promotoria que ficara famoso com o sucesso num caso em que Amadeu, o promotor, conseguiu com sucesso condenar um cão que matou outro cão em uma crise de ciúmes. Amadeu era o dono do escritório; inteligente e carismático, fez uma carreira meteórica dentro dos tribunais de todo o estado condenando criminosos que aparentavam acima de tudo ser inocentes. Educado, com uma tendência ao puritanismo, ele tinha  talento em culpar as pessoas, sentia a culpa delas.  O único defeito aparente de Amadeu era a sua recusa a contratar outro secretário, deixando pilhas e pilhas de processos e documentos nas mãos do raquítico Dagoberto.

O escritório ficava em uma avenida famosa do centro. Era fato que o prédio não chamava atenção; possuía uma fachada simplória e tímida; era uma casa da década de 40, encolhida entre um edifício residencial e um mercado médio. Dagoberto começava seu expediente às 8h e terminava às 17h30; trabalhava também até às 20h, em dia de mais trabalho, conseguindo assim faturar umas horas extras. Morava em um apartamento nos subúrbios com seus pais e um irmão mais novo.  Era magro, tinha cabelos curtos e olheiras enormes, com exatamente vinte e três anos, e um brinco na orelha. Terminara os estudos aos vinte anos, pois repetiu duas vezes o 6º ano, por falta de atenção; oriunda daí a ideia de seus pais de que ele tivesse algum déficit de memória. Sua mãe chegara a levar em alguns consultórios, que sempre confirmavam que o rapaz era completamente normal; receitavam um remediozinho, e o despachavam. Após várias idas sem encontrar nenhum sinal de deficiência mental, transtorno psicológico ou lesão no cérebro, seus pais desistiram de trata-lo e deixaram que a rotina se apoderasse deles novamente. Dagoberto, no começo tinha medo, pensava que era louco vendo a gravidade que a sua mãe dava aos seus esquecimentos; a primeira ida a uma clínica foi quando o pequeno Beto (como era chamado na infância) chegou da escola sem a sua bolsa que, pobrezinho, tinha esquecido no banheiro.  Desde antão, foram muitos horários perdidos e atrasos justificados unicamente pelos seus esquecimentos.  Quando seu irmão percebeu esse problema, adquiriu o perverso hábito de perguntar onde Dagoberto esquecera as coisas que na verdade ele não esqueceu, apenas para vê-lo em desespero; em dada ocasião, disse que Dagoberto esqueceu os documentos de sua mãe no escritório da promotoria, o fazendo ir até lá procurar; voltou apenas no dia seguinte, pois tivera medo de falar à mãe que perdeu os documentos dela. Quando o viu, o irmão de Dagoberto acabou-se em risos, contando a verdade para ele, que suportou pelo o fato de o algoz ser seu irmão mais novo.  Dagoberto até então era feliz, sua memória falhava em registrar a infelicidade diária que o cercava, assim como falhava em leva-lo à escola nos seus primeiros anos letivos.

Às 6h de uma quarta-feira, Dagoberto estava indo comprar pães; havia acordado 20 minutos antes. Ao voltar para casa, preparou o café para seus pais e para o irmão e se dirigiu a televisão para assistir alguma das dezenas de novelas que sua mãe tinha gravado ao longo da sua vida de dona de casa. Quando o relógio bateu 7h30, Dagoberto sentiu que se esqueceu de algo; e tinha de fato esquecido. Foi até a geladeira, guardou os litros de leite que deveria ter guardado na noite anterior, fechou-a e voltou para a sala. Assistiu a novelas até a hora do almoço, quando seus pais chegaram do trabalho e foram acordar seu irmão mais novo. Almoçaram juntos, como de costume, e depois foram os pais ao trabalho e o irmão caçula de Dagoberto a escola. Ficara sozinho novamente, sentindo-se ocioso, já.

Amadeu chegou ao escritório às 8h e viu que Dagoberto se atrasara novamente; estava já pensando em uma repreensão adequada quando começou a preencher os documentos que seu secretário deixara para fazer nessa manhã. Quando soarem 10h no relógio, Amadeu estava em desespero. Precisava protocolar e remeter documentos importantes e só tinha essa quarta para isso. Também havia hoje o julgamento um famoso ladrão de carros que fora pego dormindo no banco traseiro de uma camionete desaparecida há quatro anos. Praguejou contra Dagoberto com todas as suas forças e foi obrigado a pedir que enviassem outro promotor para a audiência, pois Amadeu estava ocupadíssimo hoje.  Ás 21h45 soube que o ladrão de carros foi inocentado e que seria solto de imediato. Foi a última má notícia do dia.

Em casa a mãe de Dagoberto estranhou que ele estivesse em casa no horário correto do expediente dele e perguntou como foi o trabalho. Dagoberto recebeu um choque de realidade e lembrou que trabalhava! Ficou atordoado e não soube o que fazer.”Como pude me esquecer?!”  e começou a andar pela sala em círculos, quase subiu pelas paredes, até que sua mãe o aconselhou a ir dormir e resolver esse acidente amanhã de manhã. 

Quando acordou, Dagoberto se arrumou e foi direto ao trabalho. Ao chegar ao ponto de ônibus, percebeu que o circular demorava a chegar e resolveu ir a pé.  Passando por uma loja de eletroeletrônicos, viu a notícia de que surpreendentemente metade da frota de circulares da cidade havia sido roubada na madrugada anterior; soube então o porquê do atraso e apertou o passo.  Chegando a uma enorme praça, se lembrou de que nunca fora antes ao trabalho caminhando, e que não sabia onde estava.  Pediu informação aos transeuntes que lá estavam e não conseguiu nada; passou em lojas; passou em casa loterias; passou em lanchonetes, uma pizzaria e em uma tenda de bacalhau. Desistiu de procura e se sentou. Tentou ainda pensar em uma solução, mas não havia mais. Começou a chorar, chorou de gritar; lamentou ter uma memória tão frágil e uma vida tão metódica. Chorou pelas vezes em que ele não se lembrou do quão limitada era a sua realidade; lamentou que o acidente de hoje não dependesse nem de sua memória, uma vez que nunca tinha ido a pé ao trabalho e que essa memória simplesmente não existia. Chorou e gritou até ter uma crise de nervosismo e parar; após trinta minutos sentado, inerte, esquecera-se porque tinha ido chegado até lá e continuou sentado olhando o movimento e repetindo para si mesmo. 

- Mas como essa praça é bonita!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Transeuntes

Enjoado da monotonia do novo ano,
Horácio foi à praça á tarde folhear seu livro velho.
E entredito pela leitura, deixou o relógio correr.
Foi ao perceber uma leve brisa, dessas de verão
que Horácio viu-a:


Com uma blusa verde de mangas regatas
e sapatilhas beges, o seu amor descia
em direção ao banco; tinha curtos cabelos alaranjados,
belos como a luz do sol, que atraiam a atenção até
dos objetos mais inanimados.


Pois que Horácio apaixonou-se pela transeunte.
Era linda! De proporções exatamente perfeitas.
Não vira seu rosto, mas sabia –sentia– que ela era a Vênus
de madeixas incandescentes que ele sempre procurara.


 Sabia perfeitamente que era ela
a Deusa de sua até então indefinida existência.
Pois então que a paixão fez com que Horácio permanecesse
sentado, a esperar que ela passasse;
E passou! Duas vezes, sem ao menos olha-lo,
 seguida pelo olhar dele, já em êxtase.


Mas tudo era breve, inclusive os momentos
em que a Deusa dos cabelos em brasas aparecia.


E o dia fez-se breve também;
e logo anoiteceu;
e a praça esvaziou-se;
deixando apenas os múrmuros
das folhas ao vento...


Ora, Horácio; pobre Horácio... Iludira-se mais uma vez
nas grandes galerias da paixão por uma transeunte.


Passou-se então o dia e o novo ano já não era tão
monótono como ontem...
E a Deusa loira, com seu vestidinho listrado,
caminhando lentamente
entre as estantes do mercado o maravilhara.


Ah, como era bela aquela loira; como Horácio a amava... 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Poética alheia V

Geometria dos Ventos


Eis que temos aqui a Poesia,
a  grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como  um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem  se  sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada - 
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se  arranca da  terra
já dentro da geometria impecável 
da sua lapidação.
Onde se conta uma história, 
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura, 
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra  de Eva Braun, envolta no mistério ao
                                                  mesmo  tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.
Rachel de Queiroz

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Assalto.

E quem é que vendeu essa poesia
Que esperava à fila do sindicato?
Quem aqui anoiteceu meu doce dia?
Quem tarde conseguiu esse mandato

Para sumir pra não se sabe onde?
Levou os versos que não quis vender
Nem pra rei, presidente, duque ou conde.
A Minha redondilha do não ser

Foi leiloada pela Ásia a fora:
não eram versos bons; poesia farta.
Mas é tarde, o poema foi-se embora.

Eu perdi o meu soneto autodidata.
Perdi meu fá, a nota foi-se em hora.
disso eu descobri: Poesia mata.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pobrezinho menestrel.

O poeta faz versos pra falar
Do ócio, da ânsia, do mar...
Nos seus versos o poeta reclama.
O poeta cansou de declamar.
O poeta, ah, pobre do poeta...

O poeta, ah, pobre do poeta...
Todo o seu amor se foi de doença;
De tédio; de outro amor; da cidade...
Ah, que pena do pobre do poeta,
Gente do tempo da delicadeza.

O poeta, ah, pobre do poeta.
Fez versos pra abafar a tristeza.
 O poeta, ah, pobre do poeta;
 E na sua pobre dor de poeta
 O efêmero mundo vê beleza.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

The wolf under sheepskin?

Morreu semana passada um dos maiores gênios da atualidade, o guru da tecnologia e fundador da toda poderosa Apple, Steve Jobs. E digo, não pude esperar uma repercussão maior do que a repercussão que a morte dele conseguiu gerar. O criador do Iphone, Ipad, e há anos atrás, do Imac, revolucionou o modo de enxergar a tecnologia de todo o mundo. Poucos dias após sua morte, textos, vídeos e discursos começaram a pipocar na internet; pessoas que tinham seus produtos, mas não sabiam nem ao menos quem os fabricava, apareciam aos montes em luto. Estava feito; Steve Jobs era canonizado pela massa popular.

Um santo! Definitivamente Jobs operou milagres; revolucionou um mercado inteiro e tornou a Apple a empresa mais cara do mundo. E é justamente do termo “revolução” que eu quero tratar. Steve Jobs fez muito mais do que apenas criar apetrechos que mudassem nossa maneira de interagir com a tecnologia; ele levou a comodidade da internet para dentro dos nossos bolsos, e não só da internet; uma leva de aplicativos e jogos veio no pacote, a fim de mudar totalmente o conceito que as pessoas tinham da telefonia móvel.  Com a chegada do famigerado Ipad toda a genialidade de Steve Jobs foi consolidada; não só genialidade para a informática, mas também, para o marketing de vendas e propagandas; o casamento perfeito entre um bom inventor e um grande vendedor.  Porém, não foram apenas os seus produtos que Jobs vendeu. Esteve Jobs deu início a uma revolução consumista sem precedentes, que ditou e vai ditar por muito tempo o que é moda e o que já é defasado. Juntamente com a tecnologia de ponta de seus tablets vieram requisitos mais concretos e mais caros para você ser aceito na sociedade; muito mais do que aparelhos para lazer e comodidade, os produtos de Steve Jobs se tornaram a chave da popularidade em qualquer meio social. O tablet não impressiona tanto quando o logotipo que ele leva.  O mundo rendeu-se aos eletrônicos da Apple e elevou o capitalismo em decadência dos dias atuais a um novo patamar. Se antigamente celulares eram trocados depois de terminadas suas vidas úteis, hoje são trocados assim que um novo modelo seja lançado; pois, se o indivíduo não tem o celular atual, ele desce na hierarquia social do mundo globalizado. Toda a inventividade e competência de um visionário alimentam o ego e a alma de milhões e milhões de pessoas.

Não, Jobs não é o algoz de toda a superficialidade humana, tão pouco foi ele que instaurou o regime do “parecer ser” em nosso meio social. Talvez, ele também seja um fruto dessa cultura embaçada que vem de séculos e séculos atrás. O problema está na educação. A vida educa o homem com conceitos mal interpretados, e o ilude ao dizer que você é aceito apenas com a aquisição de um bem material. Tomemos como exemplo as revoltas que ocorreram na Inglaterra há um tempo. Insurreição popular? Sim! Protesto admirável, de uma fatia da população que era tratada de forma indigna e que resolveu mostrar a sua voz. Mas então, o que motivou algumas pessoas de dentro do protesto à saquear ipads, celulares e outros eletrônicos?

Steve Jobs foi um grande pensador, inventor e empreendedor da era contemporânea; um orgulho da humanidade. Um homem que apenas com aparelhinhos eletrônicos conseguiu reformular um mercado musical quase que inteiramente, facilitar a vida de milhões de pessoas e levar a humanidade a um novo patamar de consumo. Ele realçou a superficialidade social com uma tela touchscreen. Só um homem revolucionário, com uma mente maravilhosa e ideias inovadoras seria capaz de uma façanha como essa. Steve Jobs é, prematuramente, o homem mais influente dos séculos XX e XXI.